Eu tenho fome!
21/05/2013 às 20:28:05
Fome! Fome! Eu tenho fome!
Essa foi uma das poucas frases dita antes de Maria de Nazareth, com 61 anos de idade, entrar em óbito. Os braços finos, pele colada nos ossos, rosto marcado pelo tempo e pelo descaso. Marcado pela falta de comida em um país considerado um dos maiores produtores de grãos do mundo. Como é possível em pleno século XXI alguém morrer as minguas de fome? Mas morreu.
O cenário é uma casa tomada pela sujeira, sem luz, poucos móveis ou que sobraram deles. Em cima do colchão, deitada, esta Maria de Nazareth. O repórter chega e faz uma pergunta; “o que mais dói Dona Maria?” a resposta que corta o coração de qualquer pessoa que respira e anda nesse mundo; “Fome, fome, eu tenho é fome”.
Estava tomando meu café com a TV ligada para ver e me atualizar com o noticiário. Deixei a outra metade do pão e meia xicara de café. Não tive coragem de terminar olhando aquela cena. Não que tenha me incomodado de um jeito agressivo, não! Me incomodou eu estar em uma mesa com o bom e do melhor, enquanto aquela mulher morria de fome algumas horas depois.
Descaso. Simplesmente descaso. Andamos tão ligados com nossas vidas, com nossos problemas, com nosso mundinho, que deixamos de observar um vizinho que precisa de uma mão amiga. De uma ajuda pra sair de uma situação que nem mesmo ele sabe como chegou. De ao menos perguntar “posso te ajudar de alguma forma?”. Pessoas chegaram após a matéria ir ao ar com mantimentos. Se comoveram assim como eu. Mas, já era tarde. Com a ajuda da reportagem, conseguiram interna-la e a colocaram no soro. Não havia mais tempo.
Me senti inútil. Sei que ela estava a quilômetros de distância. Que eu nem sabia da existência dela e daquela situação humilhante em um Brasil tão rico em alimento. É inadmissível morrer de inanição. Quantas vezes alguém pediu para você um lanche? Para você pagar um almoço? Uma coxinha enquanto você fazia sua refeição? E quantas vezes você se propôs a pagar?
Um país sem fome, sem miséria, não pode, não deve, não precisa depender somente do governo seja ele qual for. Basta um ser humano olhar diferente para outro ser humano.





