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Sábado, 13 de junho de 2008

Mestres da contracultura musical

Do progressivo ao punk, do britpop ao grunge, o The Who influenciou toda uma geração de músicos.

por Rodrigo Valente - Revista Toro

 

Pouquíssimas bandas de rock podem se vangloriar de uma carreira tão brilhante quanto os ingleses do Who. Do progressivo ao punk, do britpop ao grunge, influenciaram toda uma geração de músicos. Gravaram alguns dos mais importantes discos da história do rock e, ao mesmo tempo, são considerados uma das maiores bandas ao vivo de todos os tempos. Tudo isso misturado a muita atitude, originalidade e, o principal, excelente música.

O guitarrista e compositor da maioria das canções do Who, Pete Townshend, apesar de freqüentemente ser apontado como líder do grupo, tinha ao seu lado três músicos geniais. Cada integrante cumpria um papel importantíssimo para que a alquimia da banda funcionasse. Roger Daltrey, John Entwistle e Keith Moon são sempre lembrados em qualquer lista dos melhores vocalistas, baixistas e bateristas de todos os tempos, respectivamente.

O Who surgiu no começo dos anos 60, época em que a Inglaterra não parava de produzir grandes bandas. Era um país mais liberal que os Estados Unidos e não tinha o mesmo preconceito em relação aos artistas de rock e blues, em sua maioria negros. O surgimento daquelas bandas do outro lado do Atlântico acabou com um marasmo de anos, já que nos Estados Unidos os melhores artistas dos anos 50, como Chuck Berry e Little Richard, tinham sido marginalizados no cenário musical.

A invasão dos grupos britânicos, liderada pelos Beatles e os Rolling Stones a partir de 1964, mudou o curso da história da música e colocou o rock mais uma vez como um gigantesco fenômeno, particularmente entre os jovens. Nesse contexto, surge o Who no mesmo ano de 64. Logo aqueles garotos do oeste de Londres estariam gravando as primeiras canções. Para se ter uma idéia, à época Keith Moon tinha apenas 17 anos.

Em 1965, lançam “I Can’t Explain”, que atingiu o 8º posto da parada britânica. Este seria o primeiro de uma série de dez compactos que durante a segunda metade dos anos 60 alcançaram o Top Ten britânico, entre eles “My Generation”, “Substitute”, “Happy Jack”, “I Can´t See For Miles” e “Pinball Wizard”. No final de 65 sai o primeiro disco, My Generation, que coloca a banda definitivamente no cenário musical da época.

'My Generation' no histórico Monterey Pop Festival (1967)


No final dos anos 60 os horizontes do rock literalmente se expandiram. Os cabelos cresceram, as roupas mudaram completamente, a antiga moral sexual desabou e o uso de drogas tornou-se cada vez mais comum. O mundo – particularmente o ocidente – passava por uma revolução de costumes. O turbilhão daqueles acontecimentos políticos e culturais definitivamente tinha o rock como sua trilha sonora.

Aquelas transformações influenciaram diretamente o Who, que acabou tocando nos principais festivais de música da época, como Monterey (1967), Woodstock (1969) e Isle of Wight (1970), muitos deles organizados pelo forte movimento de contracultura. Ao lado de artistas como Jimi Hendrix, Cream, Doors e Janis Joplin revolucionaram a música, que ganhava muito mais liberdade e experimentalismo.

A agressividade do Who nas letras e na atitude mostrava que a banda desbravava novos caminhos. “Eu espero morrer antes de ficar velho”, diz a letra de “My Generation”. A destruição de guitarras, amplificadores e baterias no final dos concertos acabou tornando-se a marca registrada do grupo. Tudo começou quando Townshend quebrou uma guitarra por acidente durante um show. Furioso, despedaçou o instrumento. O público foi ao delírio.

Após os discos A Quick One (1966) e The Who Sell Out (1967) e turnês de sucesso pela Europa e Estados Unidos, o Who começou a gravar o que viria a ser o seu primeiro disco completamente conceitual. A ópera-rock Tommy (1969), que narra a vida de um garoto cego, surdo e mudo que vira um messias fez a banda entrar definitivamente para a história. Representou também a consagração de Pete Townshend como compositor e artista.

Young Man Blues no Festival da Ilha de Wight (1970)

Influenciados por Tommy, diversos artistas como Pink Floyd, David Bowie e Jethro Tull, mais tarde optaram pelo mesmo formato. Performances ao vivo da ópera-rock podem ser encontradas nos discos Live at Leeds e Live at Isle of Wight, ambos de 1970. Além disso, o álbum do Who virou peça da Broadway em 1993 e filme em 1975, que conta com as participações especiais de Eric Clapton, Elton John, Tina Turner e Jack Nicholson.

Um Who mais maduro produziu quatro clássicos absolutos nos anos setenta. Os discos Who’s Next (1971), Quadrophenia (1973), By Numbers (1975) e Who Are You (1978) são mais experimentais e complexos, mas mantêm a mesma pegada clássica da banda. O uso de sintetizadores, metais e pianos tornaram-se mais comuns. As excelentes gravações mostram que, além de uma das maiores bandas ao vivo, o Who também se destacava no estúdio.

Em 1978, uma overdose mata Keith Moon. Foi o triste fim do genial baterista, considerado um dos personagens mais auto-destrutivos da música. Uma dessas lendas do rock conta que em sua festa de 21 anos, Moon conduziu seu carro para dentro de uma piscina. O substituto nas baquetas foi Kenney Jones, ex-integrante do Small Faces e do Faces. Um grande baterista, mas que não teria como substituir Moon. Com essa nova formação o Who gravou dois bons e bem sucedidos discos, Face Dances (1981) e It’s Hard (1982). Durante as décadas de 80 e 90 o grupo continuou a fazer shows e turnês esporádicas, embora sem gravar nenhum álbum com material novo.

'Baba O'Riley' em uma das últimas performances com Keith Moon em 1978

Em 2002, um ataque cardíaco matou John Entwistle. À época o empresário da banda deu a seguinte declaração, “perdemos o Jimi Hendrix do baixo”. Apesar de ser o integrante mais introspectivo, com suas composições e talento como instrumentista, o baixista era parte importante da alma do Who. Alguns anos depois, apenas Pete Townshend e Roger Daltrey voltaram ao estúdio para gravar o primeiro disco do Who em quase 25 anos. Endless Wire foi lançado em 2006, mas apesar do relativo sucesso, não pode ser comparado nem de perto aos clássicos produzidos pela banda em seus tempos áureos.

No Brasil, o Who acabou como uma banda menos cultuada do que na Europa ou nos Estados Unidos. Mostra disto é que apenas Tommy, Who’s Next, Endless Wire e algumas coletâneas e discos ao vivo foram lançados em CD no país. Para encontrar os outros álbuns é preciso procurar bastante e ainda desembolsar um bom dinheiro por cada um deles, já que são importados. Fica a sugestão para que o catálogo inteiro da banda seja lançado no Brasil. É música de primeira qualidade, imperdível para quem gosta de rock.

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